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Entre dores e desafios, saúde mental também faz parte da luta pela inclusão

Neste setembro, a campanha de valorização da vida se junta com a luta das pessoas com deficiência, formando o verde e amarelo que significam muito mais que cores

Para Glayce Robinson, viver com fibromialgia significa conviver diariamente com dores que nem sempre podem ser percebidas por quem está ao redor. “Imagina uma pessoa sentir dores no corpo todo e mais todas as comorbidades que vêm como brinde, bônus”, relata. 

Foto: Carol de Andrade

O diagnóstico veio de forma relativamente rápida, após a busca por um reumatologista com experiência em doenças que nem sempre são visíveis. Desde então, ela mantém acompanhamento médico, faz uso de medicamentos e pratica atividade física, mas ainda convive com dores constantes e outras condições associadas.

A convivência prolongada com a dor também trouxe impactos para a saúde mental. Segundo ela, a condição afeta até mesmo sua capacidade de raciocínio e contribui para episódios de ansiedade e depressão. Atualmente, ela é acompanhada pela rede pública municipal com tratamento psicológico e reumatologista.

Foto: Carol de Andrade

Para Jane Chelãngela, assistente social e presidente do Conselho da Pessoa com Deficiência, o acesso ao cuidado começa na atenção básica. “A porta de entrada é a unidade básica de saúde. Mediante as queixas que o paciente traz, o médico vai pedir alguns exames”, explica.

A partir dos resultados, o paciente pode ser encaminhado para atendimento especializado. “Mediante esses exames, ele vai encaminhar pro especialista, seja o reumatologista, seja o ortopedista, e esse médico especialista vai seguir com a conduta de solicitar novos exames, outras avaliações, até que cesse ali todas as possibilidades e ele chegue à conclusão: ‘não, não, esse paciente tem fibromialgia’. Então, ele vai emitir um laudo de fibromialgia”, detalha Jane.

No caso das pessoas com deficiência que também têm fibromialgia, segundo Jane, o município oferta diferentes formas de acompanhamento. “O município oferta o atendimento médico, medicamentoso, aí tem as terapias, quando é recomendado, porque para a fibromialgia o atendimento deve ser interdisciplinar, multiprofissional”, afirma.

A realidade vivida por Glayce ajuda a dar rosto a uma discussão que ganha destaque durante o mês de setembro. Enquanto o Setembro Verde chama atenção para os direitos, a inclusão e a participação social das pessoas com deficiência, o Setembro Amarelo amplia o debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio. Juntas, as duas campanhas também ajudam a lembrar que falar de inclusão significa olhar para a pessoa de forma integral.

Foto: Carol de Andrade

De acordo com o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade. O levantamento considera diferentes dificuldades funcionais, como enxergar, ouvir, andar ou subir degraus, realizar movimentos com as mãos e exercer determinadas funções relacionadas à comunicação e à cognição.

Quando o assunto é saúde mental, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019 mostram uma diferença importante: 20,4% das pessoas com deficiência haviam recebido algum diagnóstico de depressão, enquanto o percentual entre pessoas sem deficiência era de 9,5%. Os dados foram reunidos em relatório do Governo Federal sobre a população com deficiência.

Os números, porém, não significam que a deficiência, por si só, determine o desenvolvimento de um transtorno mental. A saúde mental é influenciada por diferentes fatores e, para quem vive com alguma deficiência, situações de preconceito, discriminação, exclusão, rejeição, abandono e dificuldades de acesso a atendimento adequado podem se somar às demais dificuldades da vida cotidiana.

É o que explica Jane, “A pessoa com deficiência pode ter sua saúde mental afetada por causas multifatoriais, como situações de preconceito, discriminação, exclusão, rejeição, abandono, falta de atendimento ou tratamento adequado”.

Para a assistente social, o cuidado com a saúde mental também passa pela possibilidade de viver experiências para além da deficiência. Ter convivência social, estudar, participar de atividades recreativas e de lazer, construir amizades e manter relações familiares baseadas em respeito, incentivo e apoio são aspectos importantes para promover autonomia e independência.

No caso de Glayce, a rotina também envolve a maternidade: “Ser mãe atípica de duas crianças é viver sob constante modo alerta. É viver na defensiva e no ataque social”, descreve. Ela é mãe de dois filhos autistas, de 6 e 7 anos, que chegaram à família por meio de um processo de adoção realizado em Canaã dos Carajás. Os dois também são acompanhados pelo Centro TEA do município, onde têm acesso a atendimento especializado. A experiência de ser mãe atípica em dose dupla acrescenta outras responsabilidades ao cotidiano, ao mesmo tempo em que o acesso à rede de atendimento faz parte da rotina de cuidados da família.

Glayce conta ainda que os filhos já enfrentaram situações de preconceito, inclusive dentro de círculos próximos. Para ela, essa é uma das experiências mais dolorosas da maternidade. “Eu sinto na pele literalmente todas as dores ocasionadas pelo preconceito de eles serem autistas”, afirma. Eles são

Verde e amarelo são cores que, neste mês, ajudam a ampliar o olhar sobre duas pautas que se encontram: a valorização da vida e a inclusão das pessoas com deficiência. Em Canaã dos Carajás, essa discussão também passa pelas políticas públicas e pelos espaços de participação social. A rede municipal conta com o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência e, na área da saúde, a estrutura da Secretaria Municipal de Saúde prevê atendimento voltado à Rede de Atenção Psicossocial e à Pessoa com Deficiência.

Em setembro, o município também recebeu a 3ª edição do Festival Paralímpico, realizado em parceria entre a Prefeitura, a Fundação Municipal de Cultura, Esporte e Lazer (Funcel) e o Comitê Paralímpico Brasileiro. A iniciativa reuniu crianças e jovens com deficiência em atividades esportivas adaptadas, mostrando que inclusão também significa criar espaços de convivência, participação e desenvolvimento.

São ações que fazem parte de uma discussão maior: garantir que pessoas com deficiência possam acessar serviços, ocupar espaços, desenvolver seus projetos e participar da vida em sociedade. No caso de Glayce, essa luta aparece na rotina, na maternidade, nos estudos e na busca por cuidar também da própria saúde mental.