Como parte da campanha Agosto Lilás, a série especial “Cinco histórias, uma luta, muitas vozes” apresenta relatos de mulheres que vivenciaram diferentes formas de violência e encontraram caminhos para buscar proteção, romper ciclos de agressão e reconstruir suas vidas. Para preservar a identidade das personagens, a série utiliza sobrenomes fictícios inspirados em metais: Cobre, Ouro, Ferro, Prata e Bronze. As cinco histórias serão publicadas entre os dias 17 e 21 de agosto, uma a cada dia.
Identificada pelo sobrenome fictício Cobre, a personagem relata que a violência financeira começou de forma velada, pouco tempo depois do casamento. Ela havia se mudado de outro estado para morar com o marido, em uma casa cedida pela família dele. Naquele período, Cobre recebia seguro-desemprego, enquanto o companheiro realizava apenas alguns trabalhos informais.
Com praticamente um salário-mínimo para custear as despesas da casa, a situação financeira se tornou difícil. Segundo Cobre, embora o companheiro não buscasse uma oportunidade de trabalho formal, ele fazia questão de administrar as compras e o pagamento das contas, definindo quais despesas considerava prioritárias sem levar em conta a opinião dela.
À medida que as últimas parcelas do seguro-desemprego se aproximavam, Cobre decidiu procurar o serviço municipal de intermediação de mão de obra. Fez o cadastro, entregou currículos e conseguiu ingressar no mercado de trabalho. Mesmo empregada, porém, afirma que continuou sendo a única responsável pela renda familiar.
Ela recorda especialmente o momento em que recebeu o primeiro salário. Ao chegar em casa e comunicar ao marido que havia recebido o pagamento, ele teria apresentado uma lista de compras e contas que deveriam ser pagas, tomado o dinheiro e guardado o valor.
“Me senti constrangida, não tive reação, meus batimentos cardíacos ficaram acelerados, chorei escondida no final do dia.”, relata.

Longe da família e dos amigos, Cobre afirma que passou a não ter autonomia para decidir como utilizar o próprio dinheiro. Segundo ela, não sobravam recursos para cuidados pessoais ou para outras necessidades que considerava importantes.
Nesse período, concluiu a graduação na modalidade de ensino a distância e alimentava o desejo de exercer a profissão para a qual havia estudado. No entanto, afirma que o dinheiro que recebia e que era administrado pelo marido não era suficiente para que pudesse solicitar o registro profissional. Por mais de dez anos, permaneceu realizando outras atividades, sem conseguir atuar na área de formação.
Quando o controle atingiu as filhas
Durante o relacionamento, Cobre enfrentou dificuldades financeiras e relata ter vendido objetos pessoais e realizado trabalhos de faxina para contribuir com as despesas, muitas vezes escondida do companheiro por medo de sua reação. Mesmo após retornar ao mercado de trabalho, afirma que precisava administrar o dinheiro com cautela para evitar conflitos.
Segundo ela, as discussões eram presenciadas pelas filhas, “que escutavam a alteração de voz e o nervosismo do pai”.
Após a separação, Cobre afirma que o ex-companheiro passou a dizer a pessoas próximas que ela havia “enlouquecido” e, durante os encontros com as filhas, fazia comentários sobre a situação financeira da família e tentava influenciá-las a convencer a mãe a retomar o relacionamento.
Ela conta que as meninas retornavam emocionalmente fragilizadas desses encontros. Segundo Cobre, o pai dizia à filha mais nova que a casa dele era “de verdade” e a da mãe era “de mentira”, enquanto a filha mais velha passou a relatar as tentativas do pai de fazê-la convencer a mãe a voltar para casa.
O recomeço
Diante do sofrimento das filhas, Cobre deixou o estado onde morava e retornou ao Pará, escolhendo Canaã dos Carajás para recomeçar. No município, retomou a atuação profissional e assumiu a administração do orçamento familiar, enquanto ainda enfrenta questões judiciais relacionadas à guarda das filhas e à pensão alimentícia.
Na reconstrução da vida, priorizou a saúde mental das filhas e a estabilidade financeira da família, mas percebeu que também precisava cuidar de si. Iniciou acompanhamento psicológico para lidar com os impactos do relacionamento e se fortalecer. Para ela, o autocuidado foi “um divisor de águas” em sua trajetória.
Atenção aos sinais
Ao refletir sobre sua trajetória, Cobre alerta para a importância de reconhecer sinais de controle financeiro nos relacionamentos e de atenção à forma como os filhos podem ser envolvidos após uma separação.
Ela orienta mulheres que vivenciam situações de violência a buscar apoio na rede de proteção, como a Delegacia da Mulher, Secretaria da Mulher, CRAS e CREAS. Sua mensagem resume o processo de reconstrução vivido: “Nós, mulheres, merecemos viver e não apenas sobreviver.”
Conheça o primeiro relato da Série Especial:
Quando a violência não deixa marcas no corpo
Acesse: https://www.canaadoscarajas.pa.gov.br/novo/quando-a-violencia-nao-deixa-marcas-no-corpo/





