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Presidente Lula concede entrevista ao final da Reunião da Cúpula do BRICS

Presidente Lula concede entrevista ao final da Reunião da Cúpula do BRICS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma coletiva de imprensa ao encerrar a XVII Reunião da Cúpula do BRICS, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro. A coletiva foi bastante concorrida, com o auditório lotado por jornalistas nacionais e internacionais.

Lula chegou acompanhado por diversos ministros e se mostrou descontraído e bem-humorado. O primeiro a falar foi o chanceler Mauro Vieira, que fez um balanço da cúpula, classificando-a como “histórica”. Em seguida, o presidente, quebrando o protocolo como de costume, cedeu a palavra ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, que será realizada em novembro em Belém (PA). O embaixador fez um breve relato sobre os preparativos do evento, mencionou as obras em andamento e abordou, com diplomacia, o problema dos altos preços da hospedagem em Belém, que têm superado padrões nacionais e internacionais.

Após as falas iniciais, o presidente Lula discursou:

“Bem, companheiros e companheiras, depois da apresentação do Mauro [Vieira] e das discussões desta cúpula, termino o dia extremamente feliz. Não tenho dúvida de que o Brasil já havia sediado a melhor reunião do G20, e agora realizou a mais importante reunião da história do BRICS.

O BRICS demonstra que é possível um novo caminho para o multilateralismo, sem tutela, sem guerras, com respeito à soberania dos povos. Queremos reformar estruturas como o Conselho de Segurança da ONU, com base na realidade geopolítica de hoje, e não nas circunstâncias de 1945.

Não aceitamos que o FMI continue sendo um instrumento de austeridade que sufoca países pobres. Queremos que seja um banco de investimento voltado para o desenvolvimento. Defendemos um novo sistema financeiro e o Banco do BRICS pode ser o modelo.

Precisamos transformar a dívida externa em investimentos sociais, em infraestrutura, saúde, energia. Chega de mais do mesmo.”

Lula destacou ainda o papel da sociedade civil e a inclusão das mulheres empresárias na cúpula, algo inédito e simbólico para a construção de um novo paradigma de governança global.

“Se queremos um mundo diferente, precisamos adotar novos modelos de participação. E isso passa por democratizar a tecnologia. A inteligência artificial não pode estar nas mãos de meia dúzia de empresas. O Estado tem responsabilidade sobre o uso de dados, e o BRICS pode liderar essa discussão.”

Ao abordar os atuais conflitos globais, Lula foi enfático:

“O mundo vive hoje, desde a Segunda Guerra Mundial, o maior período de conflitos entre países. O mais grave é que o Conselho de Segurança da ONU, que deveria evitar guerras, tem sido o promotor delas. Não há hoje uma instituição com autoridade para sentar à mesa e negociar a paz entre Rússia e Ucrânia, por exemplo.

Sem interlocução real, sem proposta concreta, cada lado se fecha em seu discurso e o conflito se eterniza. A ONU perdeu representatividade, porque seus membros permanentes estão envolvidos nas disputas. É por isso que reivindicamos mudanças profundas na governança global.”

Lula defendeu maior inclusão no Conselho de Segurança da ONU, mencionando países como Índia, Brasil, México, Nigéria, Etiópia e Egito.

“O BRICS não nasceu para afrontar ninguém, mas para propor outro modo de fazer política, com solidariedade, inclusão e respeito. Queremos uma nova arquitetura de desenvolvimento, voltada para o clima, para a paz e para a dignidade humana.”

O presidente também criticou duramente a inação das instituições diante do conflito em Gaza:

“Dizer que é uma guerra contra o Hamas enquanto se matam mulheres e crianças? Cadê a ONU para parar isso? Não existe! A ONU está envolvida, os membros permanentes do Conselho de Segurança estão todos comprometidos.”

Sobre ameaças de Donald Trump

Durante a coletiva, ao ser questionado sobre a declaração do ex-presidente norte-americano Donald Trump — que ameaçou impor tarifas a países alinhados ao BRICS —, Lula foi direto:

“Sinceramente, não acho que um presidente da República dos EUA deva ameaçar o mundo pela internet. O mundo mudou. Somos países soberanos. Existe a lei da reciprocidade. Respeito é bom e todo mundo gosta. Cada país é dono do seu nariz.”

Sobre o Irã e os dois Estados

Questionado sobre a discordância do Irã em relação à criação de dois Estados para Israel e Palestina, Lula respondeu:

“Não vamos pedir ao Irã que mude de posição. Eles estão no calor do conflito. Mas nossa posição segue firme: defendemos a existência de dois Estados vivendo em paz e harmonia.”

Sobre a moeda local nas transações do BRICS

Em relação às negociações para adoção de moedas locais nas transações comerciais entre os países do BRICS, Lula afirmou:

“Essa é uma discussão antiga. Em 2004, já havíamos feito isso com a Argentina. O mundo precisa encontrar um modelo em que o dólar não seja a moeda-padrão de todas as transações. Isso será feito com muito cuidado, entre os bancos centrais, mas é um caminho sem volta.”

Sobre justiça tributária e política interna

Ao abordar a menção à justiça tributária na declaração final do BRICS, Lula comentou:

“Enviamos uma proposta ao Congresso. O Congresso a derrubou com um PDL, algo inconstitucional, pois se trata de um decreto do Executivo. Vamos discutir isso juridicamente. Democracia é isso: divergências resolvidas com respeito às instituições.”

América Latina no BRICS

Questionado sobre a ausência de outros países latino-americanos no bloco, Lula afirmou:

“O BRICS é uma ‘metamorfose ambulante’, como dizia Raul Seixas. Está em construção. Não é um clube fechado. Temos abertura para novos membros e queremos uma relação justa e democrática. Essa é a grande novidade geopolítica dos últimos anos.”

Ao final da coletiva, Lula encerrou com bom humor:

“Estou muito feliz com o papel que o Brasil está jogando. Realizamos o G20, o BRICS, e vamos sediar a COP30. O Brasil está mostrando que sabe articular. Só estou triste porque o Corinthians não foi convidado para a Copa do Mundo. Se tivesse ido, estaria na final!”

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