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“Tia da Cocada” tem nome e história nas ruas de Canaã dos Carajás

Aos 67 anos, Maria Lucinete Ferreira guarda lembranças do trabalho iniciado na infância, da criação dos filhos e dos recomeços até se tornar uma figura conhecida pela alegria e pelos doces que prepara

A história de Maria Lucinete Ferreira estreia uma série de três matérias especiais que celebrará o 32º aniversário de Canaã dos Carajás, em 5 de outubro. A série destaca a vida de personagens e memórias que ajudam a contar a trajetória do município.

Maria Lucinete Ferreira não precisa gritar para anunciar suas cocadas. Nas ruas de Canaã dos Carajás, os clientes a reconhecem de longe. Mesmo quando aparece sem a bacia, há quem pergunte pelos doces. Foi assim que depois de passar alguns dias sem trabalhar, de um lado e de outro, ouviu a pergunta que reproduz ao contar a história: “Cadê a cocada?”.

Aos 67 anos, ela é a Tia da Cocada, conhecida na cidade pelo jeito alegre e pelo trabalho que lhe garante o sustento. Natural de Senador Pompeu, no Ceará, e criada em Minerolândia, chegou ao Pará há 41 anos, quando foi morar em Tucumã. Os últimos 17 anos de sua trajetória foram construídos em Canaã dos Carajás. “Sou muito feliz por morar em Canaã dos Carajás”, afirma ela.

Fotografia: Emanuel Jadir

O ofício começou ainda na infância, aos nove anos, para ajudar os pais. Em Minerolândia, no sertão cearense, vendia quebra-queixo, paçoca de gergelim, cocada de amendoim e amendoim torrado. Décadas depois, o conhecimento daquele tempo voltaria a ser uma saída diante das dificuldades.

Antes de se estabelecer em Canaã, Lucinete trabalhou em áreas de garimpo na região de Tucumã. “Eu andei o mundo quase todo”, diz, ao recordar as passagens por lugares como Iriri e Cachoeirinha, comunidades rurais de Tucumã. Na entrevista, as lembranças da vida na mata vêm acompanhadas do motivo que a fazia seguir trabalhando: garantir o sustento e criar os dois filhos.

A chegada a Canaã também exigiu recomeços. Ela alugou uma banca na feira e morava com os filhos em um quarto de hotel. Segundo conta, a saída de trabalhadores de empresas reduziu o movimento e comprometeu sua renda. Sem conseguir manter as despesas, montou um abrigo improvisado em um terreno ocupado. Lembra dos lençóis usados para fechar o barraco, antes de conseguir construir uma moradia de madeira.

Fotografia: Emanuel Jadir

Foi em meio ao aperto que se lembrou do que sabia fazer desde criança. “Eu tenho uma profissão”, pensou. Comprou cocos e, no terreiro de casa, preparou duas variedades de cocada: maracujá e coco queimado. Levou os doces para vender na rua. A lembrança da primeira saída ainda vem acompanhada do entusiasmo com a procura: “Não deu para quem quis”, relembra.

A boa aceitação estimulou novas receitas. Depois de uma noite de descanso e de agradecimento a Deus, decidiu experimentar outras combinações. Vieram as cocadas de leite condensado com coco e de cupuaçu com coco. A produção cresceu, ganhou outros sabores e passou a sustentar sua vida na cidade. “Eu vivo da cocada”, afirma.

A bacia que os clientes encontram nas ruas é resultado de uma jornada que começa às seis da manhã. Lucinete conta que consegue descascar 30 cocos em 30 minutos, com a habilidade adquirida em anos de prática com o facão. Depois, quebra, limpa, lava e rala o coco. Cada etapa passa por suas mãos antes de o doce ficar pronto.

Fotografia: Emanuel Jadir

Por volta das três da tarde, segundo ela, quatro tipos de cocada e a paçoca de gergelim já estão preparados. Depois de se arrumar, sai para vender. Conta que costuma voltar às seis da tarde com a “bacia batendo”, expressão que usa para dizer que os doces acabaram. Os chamados vêm de diferentes lados da rua; outros clientes entram em contato por telefone.

A relação com quem compra também aparece quando ela fala de sua reputação. Lucinete se define como uma mulher trabalhadeira e querida. “Onde eu chego, eu sou bem recebida”, diz. Para ela, o reconhecimento está no carinho com que é tratada e na confiança construída ao longo dos anos. A alegria pela qual ficou conhecida acompanha esse contato cotidiano com os moradores.

Os eventos da cidade também fazem parte de seu percurso. Presença frequente nas festas, a Tia da Cocada encontra nesses espaços oportunidades para vender e complementar a renda. Ao falar da programação realizada pela Prefeitura, destaca o efeito sobre seu trabalho: “É uma ajuda muito grande.”.

Com o passar dos anos, a moradia improvisada ficou para trás. Lucinete conta que se inscreveu em um programa habitacional e foi contemplada com a casa onde vive. Recorda que foi beneficiária do programa Minha Casa, Minha Vida e teve os débitos de sua moradia quitados pela Prefeitura de Canaã dos Carajás, por meio da Secretaria Municipal de Habitação (Semhab), na ação “A Casa é Sua”, realizada no Residencial Canaã. Posteriormente, o município também doou o lote à moradora, como parte das medidas de regularização do imóvel.

Fotografia: Emanuel Jadir

Atualmente recebe o apoio do filho, que trabalha e ajuda nas despesas domésticas. A filha mora em Sergipe. Ao falar do filho, ressalta a ajuda que recebe e agradece a Deus pela relação entre os dois.

Quando é convidada a falar sobre Canaã, Lucinete volta às dificuldades da chegada, à conquista da moradia e às pessoas que a acolhem. Entre as lembranças, repete uma frase que traduz o valor desse reconhecimento: “Eu tenho um nome aqui”. Nas ruas, esse nome é Tia da Cocada. E basta que ela apareça para alguém perguntar pelos doces.

“Participo sempre das comemorações de aniversário da cidade. Que Deus abençoe Canaã e que ela continue crescendo e seguindo em frente, cada vez mais. Parabéns, Canaã dos Carajás! Feliz aniversário!”, felicitou Maria Lucinete.